Um copo de leite para todos

Quinta, 14 de Março de 2019.

Um copo de leite para todos

Treinava com a seleção olímpica, em 1971, na Escola de Educação Física do Exército, e foi lá a minha primeira, e última, experiência com esta gloriosa e, hoje, abelhuda, instituição. As instalações esportivas eram de primeira, o local lindo, no luxuoso bairro da Urca, com uma praia particular que nem ao Rei Roberto Carlos, seu morador mais ilustre, era permitido pisar suas emoções. Mas por lá, infelizmente, reinavam os privilégios, as concessões e eles, como a corrupção, são males que degradam e ferem do mesmo jeito uma nação.
O almoço das estrelas, caprichado e climatizado, era servido no segundo andar, e dava para ver da nossa fila de espera após os treinamentos, junto aos recrutas e soldados rasos, aquele desfile de garçons de branco circulando entre os quepes verdes. Só após serem saciados era servida a bóia ao se abrirem as portas do bandejão aos artistas do soldo e da bola. E eu, atleta amador, jamais esqueci daquele cardápio básico por causa dos copos de leites que viam no lugar do refrescos. Sua hierarquia, o numero de divisas que cada um ostentava, mostrava claramente que, a cada estrela alcançada, surgia um benefício concedido a mais. Aos generais....bem, ao topo da lista cabia aposentadoria integral com a metade do tempo de contribuição de um trabalhador comum, concessões e pensões vitalícias às viúvas, aos filhos, sem nenhum deles ter dado um só tiro na vida. Ou embarcando como nós o fizemos um mês depois, para a França, tentar acertar chutes a gol nos “inimigos” durante o Torneio de Cannes. E defender, em campo demarcado, o prestígio de um futebol já tricampeão.
Recorro aos livros de história para saber como criaram esta casta protetora de um céu, mar e terra absolutamente pacíficos, cujo povo jamais arrumou briga com alguém, e que foram alçados a um pedestal que nenhuma reforma da previdência ousa tocar. Com medo de um novo golpe, nosso atual presidente, um ex capitão raso, tem se mostrado cheio de dedos e nenhuma coragem de enquadrá-los no mesmo patamar de contribuições e benefícios de que nós, brasileiros, jogadores e cidadãos comuns, estamos colocados.
O que ela, história, nos conta é que antes da Guerra do Paraguai havia apenas uma Guarda Nacional. Para se juntar à Argentina e ao Uruguai e derrotar um pobre Paraguai, foram convocados os “Voluntários da Pátria” entre os civis e escravos. Com o 3x1 alcançado fora de casa voltaram cheios de pernas, verdadeiros donos da cocada preta, indígena e portuguesa. Viraram os “Salvadores da Pátria” e até um Caxias, que era um Duque, ocupou os livros de história para que um herói surgisse a justificar dali pra frente tamanhas concessões e possibilidades reais de intromissões no poder.
Enfim, a Guarda Municipal eu conheço de perto, comandada pelo Lucianinho, que realiza um ótimo serviço em minha cidade. A Polícia Militar, do 38º Batalhão, do Capitão Márcio Guimarães, também, cuida e zela com presteza de toda a nossa região. Tem um policial que é até nosso vizinho. São trabalhadores como nós, mas será preciso que todos os militares tomem durante as refeições, com a reforma da previdência, direitos e deveres servidos no mesmo copo de leite para que a renda seja melhor redistribuída. E, quem sabe um dia, o cidadão comum terá, se eles deixarem seu pedestal climatizado e se juntarem a nós, um conhaque francês servido no mesmo piso. Fechando privilégios, igualando direitos, respeitando a constituição e dando acesso ás mesmas iguarias.

Por José Roberto Lopes Padilha

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