Um pai além de uma grande paixão

Sábado, 16 de Fevereiro de 2019.

Um pai além de uma grande paixão

Em 1995 era treinador do Entrerriense FC, que disputava o campeonato carioca da primeira divisão. Com extrema ousadia, por se classificar entre os oito finalistas, e doses de imprudência, por enfrentar os grandes clubes no centenário do Flamengo, e do título nacional do Botafogo, acabávamos de cumprir nosso ultimo compromisso em Bangu após apanhar bastante. E voltamos para casa escutando no rádio a final da competição entre Flamengo x Fluminense.
Minhas filhas, então com 13 e 15 anos, já rubro-negras por sua bisavó, a Rutinha, ser mais convincente que as camisas tricolores que lhes dei de presente, estavam no banco detrás quando alcançamos o trevo da Ponte das Garças, na entrada da cidade. Faltavam três minutos e o empate era do Flamengo. E as duas pediram para passar pela Chopperia que de lá sairia a maior das carreatas. A carreata do título do centenário. Em meio a travessia da ponte o Ailton chamou o Charles, o Guerreiro, para dançar, e o Renato colocou de barriga a bola para o fundo das redes. Uma tristeza jamais sentida no interior de um Passat mudou o roteiro daquela chegada e elas pediram para ficar em casa. Naquela noite, em que faltei pela primeira vez à carreata tricolor, descobri que era muito mais pai que torcedor do Fluminense.
E, ontem, foi a vez do Bruno sair de casa em busca de um empate. No futebol, diz a lenda, jogar por ele é como sair com uma mulher que você desconhece e ela se apresentar de mini saia, decote ousado e salto alto. Você sabe apenas que vai sair, se vai voltar com ela pra casa só os noventa minutos, às vezes prorrogação, penalty, uma falha do Arrascaeta...
Bruno também ganhou a camisa recusada pelas irmãs, mas no nosso jogo de despedida, então com 13 anos, em que veio a Três Rios o Máster do Flamengo, não resistiu ao concerto oferecido por Zico, Adílio, Junior, Andrade, Claudio Adão e Julio Cesar. E foi com as meninas para o meio da massa. Saiu, ontem, de casa com o empate nas mãos e ele escorregou aos 47 minutos do segundo tempo. E nunca ninguém entrou em nossa casa com a cabeça tão baixa daquele jeito. Triste por ele, redescobri, mal dormindo também, que continuo muito mais pai que tricolor.
Quanto ao Guilherme, o nosso caçula, que a Tia Vera convenceu a ser Botafogo e fez por encalhar de vez a camisa original tricolor, dormiu muito bem, obrigado. Tem coisas que só acontecem aos que torcem pelo Botafogo.

Por José Roberto Lopes Padilha

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