Uma carta de 76

Sábado, 02 de Fevereiro de 2019.

Uma carta de 76

Era apenas mais uma briga de namorados de final de semana. Mas a distancia entre o Rio de Janeiro e Três Rios era imensa, não era percorrida na velocidade atual do WhatsApp. Era por carta e ela já havia sido escrita, selada e despachada na agência dos correios do Humaitá. Levava junto precipitações da idade que o nevoeiro intermitente sobre Petrópolis, na ida, cabeça quente dentro do fusca apertado, ajudava ainda mais a cobrir qualquer resquício de prudência. Imaginem de razão. Mas já na segunda-feira as rádios começaram a tocar Detalhes, de Roberto e Erasmo, e a musica soou no 3 em 1 do nosso quarto como uma bomba atômica jogada sobre Hiroshima. Foi quando percebi que ela, a carta, carregava pela estrada detalhes tão pequenos de nós dois.
Para traduzir o que continha uma carta, encontros e reencontros, Vinícius de Moraes se aliou a Tom Jobim e nos explicou dentro da programação da Mundial FM que “a cada volta sua há de apagar, o que esta ausência tua me causou”. Aldir Blanc e João Bosco entoaram a seguir “que esta dor assim pungente, não há de ser inutilmente, a esperança”. E Michael Sullivan e Massada fecharam o desespero dentro daquele quarto quando afirmaram que ” minha estranha loucura é tentar te desculpar quando não tem desculpa, é fazer dos teus erros, um motivo qualquer a razão da minha culpa”. Hoje, para traduzir a velocidade da informação que nos roubou entre os sentimentos, a saudade, bastam as canções da Anita e da Ludmila. E os poemas de Mr. Catra. Tempos onde o coração, e não um pau, te amavam.
A carta, imaginei naquele dia de novas canções e aflições, já havia passado de Pedro do Rio, superado a Posse, Areal e estaria prestes a alcançar Três Rios. Não havia a BR-040 e ainda daria tempo de ser interceptada. Meu irmão jogava bola com todo mundo, e entre todo mundo deveria ter um carteiro amigo e... passado tanto tempo a contravenção já prescreveu, posso delatar a mim mesmo e revelar ao Moro: ela nunca alcançou o seu destino.
E “se você vier me perguntar por onde andei no tempo em você sonhava, de olhos abertos lhe direi, amigo, eu me desesperava, sei que assim falando pensas que este desespero é moda em 76”. E havia Belchior em 1976. Feliz da geração, como a minha, que tinha pessoas sensíveis como ele traduzindo paixões e desesperos. E ante sua recente perda, meu ídolo já previa: “eu quero que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês.”

Por José Roberto Lopes Padilha

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