Uma cultura de PAZ

Sábado, 19 de Agosto de 2017.

A noção contemporânea que temos sobre segurança pública está baseada na redução máxima dos números atinentes à violência. Especialmente os crimes contra a vida e contra a propriedade. Uma sociedade segura é aquela em que a vida é preservada ao máximo e a propriedade salvaguardada.

A questão, porém, é que quando indivíduos em condições desiguais precisam conviver a solução não é tão evidente, sobretudo no que diz respeito à noção de propriedade. Indício disso é que no Código Penal Brasileiro crimes contra a vida têm um peso importante, mas que são ultrapassados quando se põe em tela a propriedade. Em outras palavras, a dosimetria penal dos crimes de latrocínio (roubo seguido de morte) é maior do que os de homicídio simplesmente.

Parece claro que a origem da cultura de violência das civilizações humanas – a propriedade – mantém-se inabalada nas civilizações contemporâneas.
A questão, de outro turno, é que valores ético-morais exigem nova postura dos indivíduos. Nosso tempo já não permite mais a lógica do olho por olho, dente por dente.

Essa é, no meu entendimento, a questão de fundo da segurança pública atual: somos naturalmente violentos, reagimos quando ameaçados, construímos a noção de propriedade, alimentamos sistemas religiosos e jurídicos para preservação dela e, por outro lado, desejamos uma sociedade menos violenta. Tudo parece apontar para a violência, mas, ainda assim, desejamos menos violência!

Os últimos vinte e cinco séculos viram surgir experiências que tentam ir na contramão de todo esse processo; desde os gregos antigos, mas não apenas entre eles, houve tentativas muito bem sucedidas de direcionar e instruir os instintos humanos para uma postura de não-violência. Mesmo sob o enfoque da preservação da propriedade, as civilizações vêm tentando encontrar mecanismos religiosos, morais, jurídicos e culturais para reorientar a violência humana.

É exatamente a isso que damos o nome de educação. Antes de ser um processo de transmissão de informações, educação é o mecanismo para construção de cidadania. Ou seja, elaboração de sistemas para a convivência humana.

Toda educação é também uma forma de coerção. Coerção no sentido de limitar a natureza humana e infundir-lhe novos horizontes culturais. Educação é o meio pelo qual a cultura se perpetua e evolui.

Embora os números atuais sejam infinitamente menores do que já foram ao longo da história, as sociedades contemporâneas desejam reduzi-los ainda mais. Parece, todavia, que tal desejo não vem acompanhado com a mesma envergadura de uma ruptura radical com os valores culturais que construímos ao longo da história. Acredito que tal revolução deva passar, necessariamente, por uma revisão completa dos sistemas ideológicos humanos, especialmente religião, direito e educação.

Nesse sentido, teremos de abrir mão da religião do acordo e da submissão e mergulharmos numa espiritualidade do diálogo e da tolerância; teremos de rever as bases jurídicas que privilegiam a propriedade e inaugurar um tempo em que a pessoa seja o foco; por fim, teremos de repensar a educação como processo de construção cultural, ou seja, como oportunidade de reorientar os instintos e promover uma cultura de paz.


Por Rafael Raposo

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