Uma lanterna ao apagar das luzes

Quinta, 07 de Fevereiro de 2019.

Uma lanterna ao apagar das luzes

O ano era o de 1992 e comandava, na ocasião, os juniores do Fluminense contra o Vasco no Maracanã. Era uma preliminar, válida pela ultima rodada do estadual, entre os dois times que disputariam o título carioca dos profissionais no jogo principal. A casa já estava cheia e perdíamos por 4x3 aos 36 minutos do segundo tempo. E as partidas de juniores só têm 40 minutos em cada tempo. Olhei para o banco de reservas em busca de um milagre e só encontrei atletas desconhecidos recrutados aos juvenis para completar um elenco desfalcado ao seu final por contusões. Perguntei ao meu auxiliar, Carlos Camelo: “Qual deles é atacante?” Ele deu uma dica: “Aquele moreninho dos juvenis, alto e magro, é da sua cidade. E joga na frente!”. Sem jamais tê-lo visto atuar, num impulso misturado de sobrevivência e respeito a terra natal, coloquei-o em campo. E dois minutos depois ele, numa linda cobrança de fora da área, decretou o empate. Naquela tarde me despedi, graças a ele, da direção tricolor mantendo uma longa invencibilidade.
O Vasco acabou ganhando o título, Edinho, nosso treinador, foi para o Marítimo FC, em Portugal, e antes de embarcar nos perguntou: “Quem era aquele menino que batia na bola daquele jeito?”. “O melhor que nós temos, respondi!”, já em busca de um busto na Praça São Sebastião ou de uma Comenda Barão Ribeiro de Sá, a distinção máxima concedida aos nossos munícipes. E o Herivelto, este era o nome da fera, quem diria, que era filho do meu amigo Carlão, acabou embarcando junto e construindo sua bela carreira em Portugal.
Vinte e sete anos depois, voltamos a nos encontrar em campo. Foi no domingo, no Estádio Odair Gama. Ele, como treinador de futebol das escolinhas do clube, eu, avô coruja do Eduardo, meu neto e goleador absoluto do Sub-11, com 13 gols. E ele, gentilmente, me convidou a lhe entregar o troféu de artilheiro. Se as palavras secaram, as lágrimas trataram de correr diante do filme que reprisava nossas carreiras. Ao repassar nossos conhecimentos às novas gerações, e mais o que aprendeu com o Edinho, Paulo Autuori e tantos outros treinadores europeus, . Herivelto retribuía com juros, dando seguidos exemplos, como ex-atleta e cidadão, a oportunidade lhe concedida aos apagar das luzes.
Naquela tarde de domingo no maior estádio do mundo, os Deuses do Futebol, trirrienses e brasileiros, lhe concederam uma lanterna. E ele tratou de iluminar seus próprios caminhos e mostrar os atalhos do bem e da bola aos novos jogadores de Três Rios. Eduardo, Felipe e Cia agradecem.

Por José Roberto Lopes Padilha

Crédito da Foto: Reprodução

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