Uma visita de irmã

Sábado, 24 de Novembro de 2018.

Uma visita de irmã

Depois de algum tempo, desta vez com mais tempo que o longo feriado proporcionou, Jane, minha irmã, passou uns dias na casa onde crescemos. No numero 206 da Rua Barão de Entre-Rios. Por lá, confessou, viveu duas décadas de sonhos. Até que um cavaleiro, montado em um Jeep amarelo, surgiu do Rio de Janeiro e a seqüestrou para cumprir o seu papel diante da, então, constituição cidadã: noivar, casar, ter filhos e cuidar dos netos. Quis rever com calma sua cidade. E a levei pelos braços para matar as saudades da sua querida Três Rios.
A primeira visita do roteiro foi à Praça São Sebastião. E ela a encontrou quase vazia, apenas alguns ambulantes e o pipoqueiro por lá permaneciam. Daí perguntou ao heróico sobrevivente, que mantinha o milho a pular sem parar, após se engasgar com uma pergunta tão banal de quem enchia o seu pacotinho (“Com casca ou sem casca?”), onde estava toda a gente. E ele apontou à sua frente: “Ali no Shopping, minha filha!”.
Daí se lembrou do Cine Rex, onde assistiu Ben-Hur, E o vento levou, Cleópatra e pela vez primeira deu um beijo escondido na vida. “Era nosso programa obrigatório nos fins de semana”, disse emocionada. Quando chegamos ao local, havia uma Igreja Universal no seu lugar. E o filme que estava em cartaz, e soubemos que passa agora o ano inteiro, no meu tempo, lembrou, só chegava ao cinema na semana santa. Então, perguntou ao porteiro: “Três Rios ainda tem cinema? ”. Ele respondeu: “Tem dois. Eles estão no Shopping.”
Já estava perdendo a paciência, de encontrar os lugares prediletos de sua infância, quando se lembrou das livrarias. Minha irmã sempre foi apaixonada pelos livros. Já tinha lido que havia uma menina que roubava livros, não sobre uma cidade que roubava suas livrarias. E foi com alegria que ela reencontrou a Papelaria Tenan. Esta, sim, resistira com seus filhos. E após percorrê-la em busca de um exemplar, encontrou brinquedos, material escolar, artigos de carnaval, mas os livros...”Cadê os livros?”, exagerou no tom. E uma gentil vendedora surgiu a responder: “Estão nas duas livrarias que restaram, A Favorita e a Cia. Do Livro, no Shopping Três Rios.!”
Aí caiu a nossa ficha. Desde que saiu daqui todos nós, sem exceção, os que foram e os que ficaram, perdemos contatos e passamos a buscar contratos. Matrimonias com divisão de bens, trabalhistas, para acumulação de bens. O capitalismo voraz engoliu nossa fé nas pessoas, pracinhas, cinemas e livrarias e as acondicionou em um só lugar, bonito e com ar condicionado central, cujo único verbo conjugado por ali é o gastar. Tão hábeis e gulosos, trocaram nosso dinheiro, que era poupado e rendia juros, por um cartão magnético, feito com a missão de nos endividar. Não mais valorizar aquela peça rara da nossa coleção, mas sair a cobiçar, em três vezes sem juros, a peça que faltava. E que trataram de lançar na nova coleção.
Meio sem graça, perguntei a minha irmã, já de malas prontas para voltar ao Rio, o que achou da nossa cidade. “Pensei em escrever uma carta para Papai Noel contando tudo”, disse ela. “Que gostaria de pedir de presente a minha cidade de volta!”. E quando foi postar a carta e pedir seu endereço na Lapônia, a funcionária dos correios lhe disse que o bom velhinho acabara de se mudar. Está morando, hoje, na porta de todos os Shopppings.
Alguém já disse, ou pensou em dizer, que no dia em que os sonhos passassem a ter endereços, a realidade roubaria todo seu fascínio. Jane voltou para o Rio, Papai Noel assinou sua carteira e o Natal, para tristeza de quem faz aniversário no dia e veio pregar a fraternidade, pode ser comprado à vista com desconto. Ou em três vezes no cartão.

Por José Roberto Lopes Padilha

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