Viver é melhor que sonhar

Terça, 05 de Setembro de 2017.

Há alguns dias eu ouvi uma palestra da filósofa contemporânea Viviane Mosé, quando ela citou um poema que dizia... "ando exercendo instantes". Eu já conhecia o texto, que trata do tempo que nos é concedido a viver o aqui e agora. Entretanto, fazendo uma releitura poética e em alusão aos dias que nos atravessam o cotidiano, pude refletir mais intensamente. E a coisa é mais funcional do que simplesmente uma belíssima frase poética. O tempo cronológico, se pararmos para pensar não acompanha o tempo mental, o processo prático dos dias e tampouco o emocional. O dia continua tendo 24 horas, os horários de entrada e saída do trabalho são os mesmos, o mundo inteiro almoça, janta e dorme basicamente nos mesmos horários, mas a velocidade dos movimentos cíclicos tem variações médias... até mesmo a orbital da terra tem lá suas variações. Nos últimos dias foi constatado o fenômeno eclipse lunar, e há quem assegure ter havido influência em nossa emotividade. A se pensar...

Ficamos mais melancólicos, sensíveis, saudosos, inquietos, ansiosos, não sei assegurar com propriedade científica, mas que exercemos pouco a presença, isso é fato. O aqui e agora é o que realiza e edifica o vital. Divagamos, projetamos e nada é retilíneo e perfeitamente equilibrado na funcionalidade da vida humana.

A rotina anda veloz, as vontades, as comunicações, a gama de informação e redescobertas estão trazendo um furor que não damos conta de processar muitas vezes. Mente, corpo e espírito estão em desalinho. O pensar crítico, a fusão das ideias, tudo pedindo pausa. Quando ouço alguém proferir milagres em nome da fé, penso que todo movimento permitido pela lei natural é fenômeno a ser lido e interpretado, inclusive nós. Pela manhã, o hábito semanal me permite ligar a televisão, a fim de atualizar-me com os noticiários e só ouço a lástima do ritmo da violência social maculando o ir e vir. O trajeto que estabelecemos diariamente entre o que somos e o que precisamos ser inseridos no mundo não insere o tempo que passou. O ontem vira história, o hoje é que pulsa e o amanhã é um olhar para um horizonte incerto. "Todos os dias quando acordo não temos mais o tempo que passou"...já disse Renato Russo. Caso exista milagre é esse! Após o Bom Dia Rio constatamos que bom dia mesmo é pegar a estrada e ver as montanhas que me aguardam todas as manhãs à margem da rodovia. Chegar ao destino não é concluir a trajetória, mas continuar um dado momento presente. A sociedade atual está frequenciando violência, injustiças sociais, crises políticas, pressões sobre os profissionais (principalmente os da área humana) e esquecendo de vibrar mais o devir, pois viver é melhor que sonhar...Algumas síndromes e sintomas estão sendo mapeados e diagnosticados precocemente em abundância nos dias atuais devido a uma simples e complexa sensação chamada ansiedade. Virou moda ter falta de ar, choro sem motivo, medo, palpitações, insônias em nome dessa tal anxious? Não, ela sempre esteve em nós, mas estávamos construindo um mundo ao redor com alguns sonhos permitidos pelo tempo. Talvez agora a velocidade esteja reduzindo o tempo de autoconstrução subjetiva que clama por afetos. Acelere-se, acelere, mude, mude, corra, corra, viva, viva, lance, dance, enfim... estão apressando o aqui e agora em todas as instâncias. Mal vemos os velhos e bons domingos passarem e daqui a poucas horas o portão da escola estará fechado para quem se atrasa cinco minutos ou você paga multa por um dia de atraso em seu boleto, etc. Mas para o sentir, até as estações são complacentes e nos dão trégua estendendo um pouco mais. Estamos todos com a sensação de ir seguindo no piloto automático e sair para o dia, mas não para a VIDA!

Por Mônica Ribeiro

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