Woodstock nunca mais

Terça, 06 de Agosto de 2019.

Woodstock nunca mais

O maior festival de rock de todos os tempos fez 50 anos. A promessa de três dias de paz, música e amor levou 400 mil jovens a acampar em uma fazenda sem qualquer conforto em 1969. E debaixo de muita lama, chuva e frio foram assistir o que havia de melhor na música para sua geração. No palco, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Jefferson Airplane…
Já o maior público reunido para assistir uma seleção de futebol, fez também 50 anos. 183.341 pessoas acamparam no maior estádio do mundo, o Maracanã, sem qualquer conforto, em 1969, pelas eliminatórias da Copa do Mundo do ano seguinte. Sentados no cimento das arquibancadas, em cadeiras de alumínio, em pé ou espremidos em uma geral, foram assistir o que melhor havia de craques em nosso futebol: Carlos Alberto Torres, Gérson, Pelé, Tostão e Jairzinho.
O maior empresário americano, Michael Lang, tentou, nos Estados Unidos, realizar este ano um evento comemorativo. E a mensagem de Woodstock chegou completamente esvaziada à sua juventude. A música perdeu parte do seu poder para a Internet. Surgiram novos tipos de astros em que a música é apenas um componente do pacote. E o evento foi cancelado.
Por aqui, 50 anos depois, a Rede Globo e a CBF tentaram fazer da Copa América um evento comemorativo em prol do amor do torcedor brasileiro à sua seleção de futebol. O evento chegou completamente esvaziado. O público da final, entre Brasil x Peru, não passou de 58.584 pagantes. A Internet favoreceu o surgimento de um novo tipo de astro – e a autonomia dos deuses da bola se perdeu em uma grande rede de parceiros comerciais cada vez que ela entrou em campo.
Meio século depois, se foi o amor ao vivo pela música e pelo futebol. Aonde se meteram os jovens americanos que subestimaram um novo Woodstock? Confesso que não sei, talvez estivessem nos McDonald´s, assistindo o educado Rei Leão e tomando susto fora das telas com os urros do presidente que elegeu. Por aqui, coube ao Padrão FIFA colocar os 110 mil que deixaram de ir ao Maracanã, no seu devido lugar.
Os ricos (8% da população) foram às Arenas torcer em confortáveis cadeiras. A classe média (23%, segundo o IBGE) que tem conta no Itaú, comprou o pacote Sky, e bebe Brahma, convidou os amigos a assistir os jogos em suas residências. Já a maioria dos trabalhadores brasileiros, que ganha salário mínimo (79%,) tratou de brigar por uma cadeira no barzinho da esquina a dividir um litrão da Skol.
Meio século depois, o que restou foi que por lá, na música, uma estrela, Lady Gaga, ainda subiu. Como nos bons tempos, ainda roubou o marido/ator, com quem que contracenou, dos braços da sua mulher.
E por aqui, nossa última estrela, Neymar, desceu. Do quarto de um hotel em Paris para jamais se levantar das acusações de abuso sexual.
Uma pena. Se quem sabe faz ao vivo, como diria o Faustão, tanto a música, sem Woodstock, quanto o futebol, sem o bom e velho Maracanã, jamais serão os mesmos.

Por José Roberto Lopes Padilha

B01 - 728x90