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Ser pai, ser mãe: o que é?

País - (Opinião) - Terça, 26 de Maio de 2020 às 12:40 horas.

  Ser pai, ser mãe: o que é? Sávio Bittencourt, Promotor


Sávio Bittencourt, Promotor

Esse artigo é escrito especialmente para a comemoração do dia nacional da adoção, 25 de maio. Trata da parentalidade por adoção, mas usará fundamentos que podem ser também úteis para a paternidade e a maternidade de forma geral, biológica ou adotiva. Gosto muito da ideia de Luiz Schettini Filho, Psicólogo, de que essa dicotomia entre filiação biológica e adotiva é inadequada. Ele nos ensina que todos somos filhos biológicos e adotivos. Todos. Somos biológicos porque não há outra forma de existir humanamente, pelo menos nessa vida terrena, sem recurso aos argumentos religiosos e metafísicos. Mesmo os clones que porventura tenham sido criados, se humanos, são biológicos. É uma condição imanente do existir, portanto, que nos identifica, oferecendo características inéditas e personalíssimas que distinguem cada pessoa. Por outro lado, somos todos adotivos, ou pelo menos deveríamos ser, porque alguém mais velho colocou parte de sua existência, de sua atenção e de seu tempo a serviço da nossa criação, convivendo conosco em relação de especial cuidado.
Essas duas realidades se casam, tornando-nos absolutamente únicos. Mais que isso, a formulação de Schettini concebe uma noção mais abrangente do seja a adoção. Se, para sermos adultos sadios e emocionalmente equilibrados, precisamos de quem se dedicasse ao nosso existir, com atendimento das mais diversas necessidades no cotidiano de uma família, parece ser que somos adotivos porque fomo verdadeiramente amados. Neste sentido, a adoção será tão somente uma atitude. Justamente a atitude da paternidade e da maternidade que, superando as dificuldades e os desafios das relações interpessoais, fazem do cuidado afetivo com o outro uma opção de vida. Em suma, são adotadas as crianças que são amadas. Em algumas hipóteses as crianças serão filhas biológicas e adotivas das mesmas pessoas, que as geraram fisicamente e, além disso, as criam com afeto. São pais biológicos que adotam os próprios filhos, porque os amam.
Em outras ocorrências, algumas crianças geradas por uns, que não demonstram a capacidade de cuidar amorosamente delas, são criadas por outros, com todo afeto e dedicação própria de quem quer-bem-a-alguém.
Nestes casos, o amor que se coloca a serviço da criança vem de um vínculo que se cria a posteriori, que não perde em qualidade emocional em relação ao vínculo de afeto que um genitor biológico venha a ter com seu filho, caso verdadeiramente o ame. Desta forma, tanto um quanto outro terão em comum a disposição para amar e para se fazer amar, saindo um pouco de si mesmos e se concentrando no outro; parando suas vida, seus interesses exclusivos, para sentir o cheiro, os gostos, os gestos, o sorriso do filho: perceber seu jeitão e construir no cotidiano uma relação desafiante e deliciosa, em perpétua mutação. Nela só o amor será constante. E é esse sentimento que gerará a atitude adotiva, aquela que se responsabiliza pelo outro, que o coloca em primeiro lugar, que o faz sentir-se especial e querido. A adoção é isso e simplesmente isso: uma atitude. Quem ama adota.

Nota do nosso colunista Padre Medoro: "Apresento, com grata e dupla alegria o artigo acima, publicado no jornal O Estado, de Fortaleza, CE, em 26 e maio de 2020: uma mensagem oportuníssima em tempos de tantas vidas infantis sacrificadas – já antes da pandemia que aí está - e por ser testemunha ocular de sua paternidade de adoção que, conforme explicitou inovadoramente, é igualmente biológica.
Medoro, irmão menor-padre pecador."

Por Redação

Crédito da Foto: Reprodução

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