Setembro Amarelo adverte para a prevenção ao Suicídio

Muito se fala sobre violência, mas atualmente se morre mais por suicídio do que por homicídio e guerras juntos

Mundo - (Saúde) - Sábado, 15 de Setembro de 2018.

Setembro Amarelo adverte para a prevenção ao Suicídio

O Setembro Amarelo é um movimento mundial para conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção em mais de 90% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O suicídio é considerado um problema de saúde pública e mata um brasileiro a cada 45 minutos e uma pessoa a cada 45 segundos em todo o mundo. Pelos números oficiais, são 32 brasileiros mortos por dia, taxa superior às vítimas da Aids e da maioria dos tipos de câncer. Pelo menos o triplo de pessoas tentaram tirar a própria vida e outras chegaram a pensar em suicídio. Apesar de números tão alarmantes, o assunto ainda é tratado como tabu. Evitar o assunto só colabora para o aumento dos casos, pois as pessoas muitas vezes não sabem que podem procurar ajuda. Mas como buscar ajuda se a pessoa sequer sabe que ela pode ser ajudada e que o que ela passa naquele momento é mais comum do que se divulga e ela imagina? Ao mesmo tempo, como é possível oferecer ajuda a um amigo ou parente se também não sabemos identificar os sinais e muito menos temos familiaridade com a abordagem mais adequada? O Centro de Valorização da Vida (CVV) O Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade sem fins lucrativos que atua gratuitamente na prevenção do suicídio desde 1962, está engajada e promovendo atividades neste movimento iniciado há dois anos no Brasil, chamado Setembro Amarelo. A ideia é divulgar a causa intensamente durante o mês, já que no dia 10 é celebrado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, tendo como parte fundamental a iluminação ou coloração de amarelo de locais, construções ou monumentos e, ainda, a colocação de laços amarelos nas fachadas de prédios públicos e privados para lembrarmos que devemos, sim, falar sobre a prevenção do suicídio. Agora o 188 é gratuito para todo o país Qualquer ligação de telefone fixo ou celular para o 188, número do Centro de Valorização da Vida (CVV), é agora gratuito no Brasil. Uma parceria com o Ministério da Saúde estendeu o serviço para todo o território nacional. O acordo já existia desde 2015 e foi chegando aos poucos a várias regiões, mas a ampliação total da rede gratuita foi concluída apenas agora. Em 2017, recebeu 2 milhões de ligações de pessoas em busca de ajuda e alguém que os escute do outro lado da linha. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos. Conversa com Psiquiatra O Entre-Rios Jornal conversou com Victor de Souza Mannarino, Médico Psiquiatra de Três Rios, que nos contou sobre o suicídio, sinais que um suicida pode apresentar e ainda como podemos ajudar pessoas próximas que estejam passando por isso. Confira: 1. Quais as principais motivações que podem levar alguém ao suicídio nos dias de hoje? O comportamento suicida é bastante complexo e variado, sendo resultado da interação de fatores psicológicos, genéticos e ambientais. Geralmente o indivíduo que se suicida tem uma doença mental, muitas vezes não tratada ou sequer diagnosticada. Um transtorno mental como a depressão, por exemplo, pode alterar as emoções e os pensamentos da pessoa, fazendo-a considerar que acabar com a própria vida pode ser a melhor solução. 2. É normal adolescente ter depressão e como isso está associado? A depressão entre jovens é bastante comum. A adolescência é uma fase de transição entre a infância e a vida adulta, de muitas mudanças, em que a personalidade está se consolidando. Entramos em conflito com nossa própria identidade e construímos novas crenças em relação ao mundo e a nós mesmos, tentamos nos adaptar às demandas da vida adulta e buscamos por aceitação, ou seja, é uma fase que pode ser marcada por dúvidas, frustrações e desafios, e, portanto, os indivíduos estão mais suscetíveis a depressão. 3. Existem sinais que podem ser identificados em um suicida em potencial? Sim, muitos pacientes que se suicidam dão pistas. Os estudos mostram que a maioria dos suicidas estiveram em contato com algum médico semanas antes de se matar. A pessoa pode começar a se isolar, falar muito sobre temas de morte, manifestar sentimentos de desesperança, ou falar em tom de despedida, pode também se colocar em situações de risco com atitudes impulsivas e perda do autocontrole. É fundamental que os profissionais de saúde estejam preparados para identificar os fatores de risco para intervir precocemente nesses pacientes. 4. Se um suicídio acontece, de quem é a culpa? A ignorância e o preconceito são os culpados. Diversos fatores impedem a detecção precoce, e consequente prevenção do suicídio. O estigma e o tabu relacionado ao assunto são aspectos importantes. Ainda temos medo e vergonha de falar abertamente sobre esse importante problema de saúde pública. A dificuldade em buscar ajuda, a falta de conhecimento e de atenção sobre o assunto e a ideia errônea de que o comportamento suicida não é algo frequente condicionam barreiras para a prevenção. 5. A OMS mostra que os casos de suicídio são mais comuns entre idosos e têm crescido muito em jovens. O que acontece nessas idades que levam as pessoas a tirarem a própria vida? Os idosos se deparam com a frustração e o estresse relacionados a perda de sua funcionalidade e ao surgimento de doenças debilitantes e dolorosas, vêem muitas pessoas ao seu redor falecendo, ou adoecendo, muitas vezes se sentem desvalorizados e um peso para seus familiares. Tem havido um aumento no número de suicídio entre os jovens e as explicações para isso ainda não estão bem estabelecidas. O comportamento suicida entre jovens tem motivações complexas, muitas vezes relacionados a problemas familiares e sociais, histórico de violência, uso de substâncias psicoativas além de bullying. Ressalto que alguns fatores, como o advento das novas tecnologias de comunicação, tornaram as relações mais difusas e menos consistentes, todos estão conectados e ao mesmo tempo sentindo-se mais sozinhos, o jovem também se depara com uma sociedade um tanto individualista, competitiva e desigual que muitas vezes valoriza padrões estéticos e comportamentais inalcançáveis. 6. É possível evitar que alguém próximo de nós se mate? Sim. Construindo vínculos afetivos saudáveis, baseados em sentimentos de pertencimento, respeito, amor, confiança e diálogo. Se suspeitar que alguém próximo sofra de algum transtorno mental o ajude a procurar um psiquiatra. Além disso converse, não tenha medo ou vergonha de falar sobre o tema, ofereça ajuda, dê suporte e amparo. 7. Se prever um suicídio é impossível, como se pode preveni-lo? A melhor maneira de prevenir o suicídio é conhecendo seus fatores de risco. Os principais fatores isolados são a existência de doença mental e tentativa de suicídio prévia. O risco de suicídio também é maior, por exemplo em: homens, idosos, sem filhos, desempregados, solteiros, divorciados, viúvos, moradores de rua, vítimas de abuso físico ou sexual, com doenças incapacitantes, dor cônica, perdas recentes, com personalidade impulsiva, com maior acesso a métodos potencialmente letais (como armas de fogo), entre outros. 8. Quais os quadros médicos mais comuns que podem denunciar um suicida? São muitos os transtornos mentais relacionados ao comportamento suicida, entre eles: depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e uso de outras substâncias psicoativas, transtornos de personalidade, esquizofrenia entre outros. Importante destacar que os transtornos psiquiátricos podem estar associados, o que só piora o risco. Exemplo: depressão associado com alcoolismo. A taxa de suicídio é maior também em pacientes com doenças clínicas como: hiv, doenças neurológicas, cardiovasculares, reumatológicas etc. 9. Como agir caso identifique algum desses sinais? Mostre à pessoa que ela não está sozinha e procure ajuda especializada, de preferência um psiquiatra. 10. Com sua experiência, o que tem as nos acrescentar sobre o suicídio e também sobre o setembro amarelo? Para se ter uma noção da dimensão do problema, é importante dizer que, anualmente, ocorrem 800.000 suicídios no mundo. Muito se fala sobre violência, mas atualmente se morre mais por suicídio do que por homicidio e guerras juntos! Nosso país, extremamente desigual em oportunidades, no momento de crise econômica, com altos indices de desemprego, endividamento, com os ânimos acirrados, numa atmosfera de ódio e intolerância política e ideológica se tornou o cenário propício para o adoecimento mental generalizado. Não é por acaso que é o pais com a maior prevalência de ansiedade do mundo e o quinto maior em casos de depressão. Nos EUA, metade dos suicídios ocorrem por arma de fogo, um método altamente letal. Isso precisa ser considerado antes de se pensar em facilitar o porte de armas em nosso país. Os dados oficiais sobre suicídio no brasil não correspondem à realidade, o problema é provavelmente maior pois muitos casos não são notificados. O suicídio traz consequências devastadoras também para as pessoas que estavam ao redor do suicida. O setembro amarelo é uma oportunidade para mudarmos essa triste realidade. Precisamos falar, debater, propor e cobrar das autoridades e da mídia para que olhem para a saúde mental e construam políticas de saúde eficazes. As doenças mentais são a maior causa de incapacitação do mundo, trazem prejuízos inestimáveis em todos os aspectos, inclusive econômicos, mas geralmente são as que recebem menos atenção da sociedade. Nos dias de hoje, nenhum país, cidade, comunidade, empresa ou família consegue prosperar minimamente se não investir na saúde mental e no bem-estar de seus membros.


Por Zeca Lima

Publicidade
4 itens por 199